Machismo no ambiente corporativo

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Machismo no ambiente corporativo

Quais conversas são necessárias para lidar com o machismo no ambiente corporativo?

Quem nunca ouviu uma piada ou frase machista no trabalho?

Antes de começar, acho válido trazer a definição que mais gosto de usar, dada por Mario Sergio Cortella, para o termo “machismo”, assim deixo claro sobre o que estou me propondo a falar:

“Machismo significa a concepção de que mulheres são subordinadas aos homens. O feminismo, por sua vez, não é o contrário de machismo. O feminismo não supõe que homens são subordinados às mulheres, mas que homens e mulheres são iguais.”

Vale lembrar que não necessariamente elas são proferidas exclusivamente por homens. Já cheguei a ouvir de uma mulher que eu não precisava trabalhar, que se o fazia era por “hobbie”, afinal, era uma mulher bonita, não precisaria ali estar, se não quisesse. Pasmem!

Sim. Mulheres podem atentar contra elas mesmas sem nem se darem conta. Eu mesma, já me peguei dizendo, referindo-me a uma com quem trabalhava: Esta é mesmo muito “macho” para enfrentar tal situação de forma tão corajosa! Como se coragem fosse uma característica exclusiva do gênero masculino. Confesso que me sinto até um pouco envergonhada em admitir isso, logo em um artigo dirigido ao público feminino. Mas aqui me exponho com o intuito de mostrar o quanto é inútil, então, responsabilizarmos somente os homens pelo machismo que permeia nossas vidas, de maneira quase que velada por um lado, já que não é nada bonito hoje em dia ser machista e, ao mesmo tempo, escancarada por outro, disfarçado de humor, com o intuito de buscar aceitabilidade social.

Não querendo me defender, muito pelo contrário, pois nem acho que caiba defesa para comportamentos machistas, ainda mais para os inconscientes. O fato é que a questão cultural não tem como ser deixada de lado ao falarmos do assunto. Não é possível ignorá-la e vou mostrar o motivo.

Outro dia li um post na internet que dizia:

Sabe porque os casamentos no passado duravam mais do que hoje em dia? É porque publicações davam dicas de como manter o seu relacionamento nos eixos.
Frases retiradas de revistas femininas das décadas de 50 e 60:

“Não se deve irritar o homem com ciúmes e dúvidas”. (Jornal das Moças, 1957).

“Se desconfiar da infidelidade do marido, a esposa deve redobrar seu carinho e provas de afeto, sem questioná-lo”. (Revista Cláudia, 1962).

A coisa toda seguiu citando outros primores de publicações antigas e acabou com:

E para finalizar…

“O lugar de mulher é no lar. O trabalho fora de casa a masculiniza”. (Revista Querida, 1955).
CONCLUSÃO: “Não se fazem mais revistas instrutivas como antigamente”.

Atenção, por favor, à conclusão do autor! Parece piada e pode ser que seja mesmo, mas isso não vem ao caso, pelo menos não agora. Também não citarei o autor do post, até porque não quero dar audiência ao indivíduo. Apesar de ter ficado muito brava ao ler, ele também me fez refletir.

Releia as publicações do post, se necessário for e volte a esse ponto do texto. Não tem muito tempo – pois considero 60 anos como sendo pouco tempo, culturalmente falando – as mulheres eram educadas para a submissão, ensinadas a não se posicionar diante dos homens. Suas vontades não eram… Vontades? O que eram vontades para elas nessa época? Ou seja, tudo o que temos conquistado na luta pela igualdade de gêneros é ainda muito recente, muito novo. Todos nós, mulheres e homens, estamos aprendendo a lidar com um mundo diferente e, ainda bem.

A geração da minha mãe foi educada para “suportar” um relacionamento “no matter what”, não importando você estar satisfeita ou não com ele, afinal, somente uma das pessoas nessa relação tinha importância para a sociedade, de uma forma geral, e esse privilégio era do homem. Não era à toa que casamentos duravam mais tempo.

Quantas de nós ainda hoje “perdemos a mão” nessa busca pela tão sonhada igualdade de gêneros, quando por exemplo, para alcançar uma carreira de “sucesso” abdicamos de uma série de outros “quereres”, como, constituir uma família, ou viajar pelo mundo sem destino. Ressalto, não há nada de errado em fazer essas escolhas e creio que sim, existem mulheres felizes da vida com elas. Só acho que ainda estamos experimentando toda essa liberdade que queremos, toda essa igualdade que buscamos e não conseguimos muitas vezes, ainda que inconscientemente, nos livrar do “machismo” que nos ronda. Vejo, inclusive em meu consultório, dificuldade de ambos os gêneros em lidar com essa nova realidade.

Sheryl Sandberg, alta executiva do Facebook, no polêmico livro “Faça Acontecer”, diz que a responsabilidade pelas desigualdades de gênero é também, e em larga escala, feminina. “Nós nos refreamos de várias maneiras, em coisas grandes ou miúdas, por falta de autoconfiança, por não levantar a mão, por recuar, às vezes em nome da família, quando deveríamos fazer acontecer”, diz Sandberg.

Eu concordo com Sheryl e ouso a dizer, somos responsáveis também por continuarmos a ouvir as “inocentes” (#sóquenão) piadinhas machistas e sorrirmos ou nos calarmos.

Quantas de nós são autoras de frases como a minha? (Ai que vergonha! – De novo).
Quantas de nós não acham nada engraçado, mas não se sentem autorizadas a se posicionar diante das brincadeiras?

Quantas de nós nem mesmo se deram conta do conteúdo machista de muitas dessas piadas?

E quando isso acontece no ambiente corporativo, então? Quais são nossas reações?
É preciso ser muito “mulher” para se posicionar com a coragem, que já sabemos, não nos falta. Fomos ao longo de séculos criadas para cuidar da casa e dos filhos, já fazemos isso tão bem e hoje ainda trabalhamos também.

Isto posto, gostaria de convidá-las a refletir sobre o nosso discurso e o nosso “não discurso” diante de uma frase, piada ou um comportamento machista.

Como você costuma se posicionar diante desse tipo de situação? Que conversas acontecem dentro e fora de você quando se depara com uma brincadeira ou comentário machista? Você costuma se posicionar? De que forma o faz?

Eu mesma já tive inúmeros colegas de trabalho, homens e mulheres, que estão longe de se intitularem machistas, quanto mais reconhecerem atitudes suas como tais, mas se sentem autorizados a fazer uma piadinha aqui e outra ali.

Se uma colega de trabalho não está num bom dia: “Ixxi, ela deve estar na TPM! ”
“Preciso contratar mais homens para a área, senão não daremos conta dos períodos de licença à maternidade que estão por vir. ”, seguido de um sorrisinho ao final, claro, para garantir a tal da aceitabilidade social já mencionada.

Isso sem falar nas piadas propriamente ditas: “Minha mulher quer fazer academia, disse a ela que não precisava, pois já tem uma em casa, e com todos os aparelhos de direito: fogão, tanque, pia.”

Enfim, minha intenção não é dissertar sobre o machismo, ele está aí, para todo mundo ver, ouvir, ler. Ele está enraizado até mesmo em nós, mulheres. Minha intenção é trazer mais luz para a forma como lidamos com ele, é fazer pensar sobre como vamos, a partir de agora, nos comportar quando conscientemente nos depararmos com ele, principalmente no ambiente corporativo, onde ainda, de uma maneira geral, não nos sentimos tão autorizadas para expor opiniões feministas. Lembrando sempre, “feminismo não é o contrário de machismo”, feminismo pressupõe igualdade de gêneros, enquanto que machismo pressupõe superioridade do homem em relação a mulher.

Acho válido ressaltar que talvez seja importante se preparar para as reações adversas diante desses posicionamentos, para as conversas que virão à tona após manifestar a conversa que já vem há tempos acontecendo dentro de você ao ouvir uma “piadinha” machista.

Eu, por exemplo, costumo receber por Whatsapp, e ouvir mais piadas machistas que outras mulheres, justamente por manifestar o meu incômodo com elas. Quantas vezes não repudiei e ouvi, de mulheres inclusive: “Fulano (a) só está brincando, relaxe!”

Pelo menos, de acordo com as minhas experiências nesse sentido, posso dizer que na maioria dos casos, as mulheres ao redor ainda se calavam quando me manifestava desaprovando as brincadeiras machistas no ambiente corporativo.

Trago para mim a responsabilidade de melhorar o meu discurso, com a intenção de torná-lo eficiente a ponto de, pelo menos, garantir o respeito que entendo merecer como mulher na sociedade, já antecipando o meu agradecimento aqueles que puderem não me enviar mensagens escritas ou proferir brincadeiras do tipo.

Confesso que nem sempre estou disposta a trazer a minha conversa interna à tona. Às vezes dá preguiça. Chega a ser cansativo, mas não desistirei de lutar por minhas convicções sobre o tema. Quero continuar a conversar sobre isso, dentro e fora de mim. Se esse artigo te fez, no mínimo, refletir sobre as conversas que acontecem dentro de você com relação ao tema, sobre sua postura atual com relação a ele, mesmo que opte por não exteriorizar essa conversa, ele já cumpriu com seu papel.
Um beijo no coração e CORAGEM!

Por Janaina Velloza, Coaching para Mulheres

1 Comentário

  1. Marina Castro arantes disse:

    Achei muito interessante e quero saber mais sobre a entidade, como funciona e como posso conhecer os benefícios, no que posso contar

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